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Bori, o que é e pra que serve

Já a algum tempo que venho querendo escrever sobre o Bori e mostrar por “A” mais “B” que Bori não é Camarinha. Ouço muita gente aqui em portugal dizendo que tem Bori quando na verdade tem uma Camarinha de Umbanda. Mesmo porque seria uma covardia comparar u Bori com uma Camarinha.

Abaixo segue o texto de Maria Manuela que explica muito bem o que é o Bori e pra que serve.

Da fusão da palavra Bó, que em Ioruba significa oferenda, com Ori, que quer dizer cabeça, surge o termo Bori, que literalmente traduzido significa “ Oferenda à Cabeça”. Do ponto de vista da interpretação do ritual, pode-se afirmar que o Bori é uma iniciação à religião, na realidade, a grande iniciação, sem a qual nenhum noviço pode passar pelos rituais de raspagem, ou seja, pela iniciação ao sacerdócio. Sendo assim, quem deu Bori é (Iésè órìsà).

Cada pessoa, antes de nascer escolhe o seu Ori, o seu princípio individual, a sua cabeça. Ele revela que cada ser humano é único, tendo escolhido as suas próprias potencialidades. Odú é o caminho pelo qual se chega à plena realização de Orí, portanto não se pode cobiçar as conquistas dos outros. Cada um, como ensina Orunmilá – Ifá, deve ser grande no seu próprio caminho, pois, embora se escolha o Orí antes de nascer na Terra, os caminhos vão sendo traçados ao longo da vida.

Exú, por exemplo, mostra-nos a encruzilhada, ou seja, revela que temos vários caminhos a escolher. Ponderar e escolher a trajectória mais adequada é a tarefa que cabe a cada Orí, por isso, o equilíbrio e a clareza são fundamentais na hora da decisão e é por intermédio do Bori que tudo é adquirido.

Os mais antigos souberam que Ajalá é o Orixá funfun responsável pela criação de Orí. Desta forma, ensinaram-nos que Oxalá deve ser sempre evocado na cerimónia de Bori. Iemanjá é a mãe da individualidade, e por essa razão está directamente relacionada com Orí, sendo imprescindível a sua participação no ritual.

A própria cabeça é a síntese dos caminhos entrecruzados. A individualidade e a iniciação (que são únicas e acabam, muitas vezes, configurando-se como sinónimos) começam no Orí, que ao mesmo tempo aponta para as quatro direcções.

OJUORI – A TESTA

ICOCO ORI – A NUCA

OPA OTUM – O LADO DIREITO

OPA OSSI – O LADO ESQUERDO

Desta mesma forma, a Terra também é dividida em quatro pontos: norte, sul, este e oeste; o centro é a referencia, logo, todas as pessoas se devem colocar como o centro do mundo, tendo à sua volta os quatro pontos cardeais: os caminhos a escolher e a seguir. A cabeça é uma síntese do mundo, com todas as possibilidades e contradições.
Em África, Orí é considerado um Deus, aliás, o primeiro que deve ser cultuado, mas é também, juntamente com o sopro da vida (emi) e o organismo (ese), um conceito fundamental para compreender os rituais relacionados com a vida, como o Axexê (asesé). Nota-se a importância destes elementos, sobretudo o Orí, pelos Orikis com que são invocados.

O Bori prepara a cabeça para que o Orixá se possa manifestar plenamente. Entre as oferendas que são feitas ao Orí algumas merecem menção especial.

É o caso da galinha de Angola, chamada Etun ou Konkém no Candomblé; ela é o maior símbolo de individualização e representa a própria iniciação. A Etun é adoxu (adosú), ou seja, é feita nos mistérios do Orixá. Ela já nasce com Exú, por isso se relaciona com o começo e com o fim, com a vida e a morte, por isso está no Bori e no Axexê.

O peixe representa as potencialidades, pois a imensidão do oceano é a sua casa e a liberdade o seu próprio caminho. As comidas brancas, principalmente os grãos, evocam fertilidade e fartura. Flores, que aguardam a germinação, e frutas, os produtos da flor germinada, simbolizam a fartura e a riqueza.

O pombo branco é o maior símbolo do poder criador, portanto não pode faltar. A noz cola, isto é, o obi é sempre o primeiro alimento oferecido a Ori; é a boa semente que se planta e se espera que dê bons frutos.

Todos os elementos que constituem a oferenda à cabeça exprimem desejos comuns a todas as pessoas: paz, tranquilidade, saúde, prosperidade, riqueza, boa sorte, amor, longevidade, mas cabe ao Orí de cada um eleger as prioridades e, uma vez cultuado como deve ser, proporciona-as aos seus filhos.

Nunca se esqueça: Orixá começa com Orí.

Este excelente texto foi publicado no blog http://ocandomble.wordpress.com pela Maria Manuela, confiram mais textos no blog.

Pra próxima semana trago a entreviste que realizei com Babálorixá Zé Carlos de Oxoguian.

Axé a todos!

 

Sobre Mutakelenji

Iniciado no Candomblé de Angola como Tata Kambondo e estudioso da cultura afro-brasileira.

15 comentários

  1. olá, gostaria de saber se vc tem email de contato. obrigada. kolofé.

  2. olá Silvia. O email pra contacto é leonardoasb@gmail.com

    Mais esteja a vontade para colocar suas dúvidas, sugestões ou crticas aqui no blog mesmo.

    Nzambi Ukuatessá

  3. Olá Leonardo, devo lhe conversar que seu texto me deixou um tanto quanto angustiado.
    Frequento um gira de umbanda toda semana onde atende com um caboclo. Mas também vou a um barracão de candomblé em algumas festas e principalmente para jogar. Ocorre que na última fez que joguei, apareceu a necessidade de eu me recolher, fazendo a carminha ou sendo raspado. A mão de santo, juntamente com meu pai de santo da umbanda me sugeriram fazer uma carminha com elementos de candomblé, o que você parece ser contra em seu texto. Então pergunto, isso pode me fazer mal? é possível no mesmo período de recolhimento fazer a carminha e o bori?

    desde logo,
    muito obrigado e meus sinceros parabêns pelo trabalho de divulgação do conhecimento desenvolvido nesse site.

    • Leonardo Bezerra (Mutakelenji)

      Olá Vinicius, espero que ja tenha passado a angustia. O texto é da Maria Manuela, eu partilho da mesma opnião que ela, por isso publiquei o texto.

      Uma camarinha com elementos de candomblé eu nunca vi e desconheço tal ato, mais ai eu dizer que está errado jamais. primeiro: eu não vou participar – não vou ver, então na pratica não sei como vai ser mesmo, segundo: parto do principio de que se os zeladores conversão e são amigos eles vão se entender para fazer tudo da melhor maneira possivel.

      Acho que você deve sentar e conversar com as duas pessoas e tirar suas duvidas.

      Um bori mal feito pode sim te fazer mal como pode não fazer nada, nem bom nem ruim.

      Penso que a conversa vai ser sua melhor alternativa, para que você possa entrar de cabeça tranquila e sem receios, as vezes nós mesmos nos boicotamos.

      Kibuko
      Irê Ô

      Qualquer coisa estamos ai. Um abraço.

    • Babal'Orisa Ajalé Emi l'Axé (José Carlos)

      Olá Vinicius, essa proposta de sua mãe de santo da umbanda juntamente com seu pai de santo do candomblé me parece mais uma tentativa de agradar a gregos e troianos, quer dizer, para que nem um nem outro sejam afastados de você; Eu penso que o mais acertado seria, através do jogo de búzios saber o que seu Orixá gostaria que fosse feito. Se uma iniciação na Umbanda ou se a iniciação no Candomblé. Ele é que deve te orientar pois é Ele que zela pelo teu Ori. Precisaria jogar com alguem que, além de idoneo não tivesse qualquer interesse em recolher você. Caso não encontre, peça a seu Orixá que lhe mostre aquilo que deseja. Ele te mostrará concerteza.
      Oxalá te abençoe.
      Ajalé Emi l’Axé

  4. Bom dia, por gentileza preciso de um a orientação, pois me informarão que eu e minha filha temos os mesmos orixás e anjo da guarda dessa forma, nem eu e nem ela podemos raspa a cabeça no candomblé, pois se uma raspa a outra morre, já confirmei em outros lugares que temos os mesmos guias.
    Desde já agradeço.

    Editado por Mutakelenji. Editado para mantar a privacidade da leitora.

    • Leonardo Bezerra (Mutakelenji)

      Simone nunca ouvi esse tipo de coisa. Mais como nunca sabemos de tudo nessa vida, vou cosultar alguns mais velhos para que possam exclarecer melhor isso.

    • Muito boa tarde e Asè!

      Muito francamente, não posso acreditar que alguém do candomblé, pudesse ter dito tal coisa! ou então, é alguém que se faz passar pelo que não é! Se estiver no Brasil, procure um bom pai ou mãe de santo, que os há! Se por acaso for da bahía, poderia indicar o Pai Aristides Mascarenhas , da FENACAB , no pelourinho. Se for de outro sítio de Brasil, também encontrará alguém; se for de Portugal e quiser uma consulta, eu próprio puderei fazê-la, caso ache que sou a pessoa indicada

      Olorun modupé.

  5. Babal'Orisa Ajalé Emi l'Axé (José Carlos)

    Vou deixar 2 linhas só pra dizer que gostei muito do texto publicado sobre o significado e a importancia do Bori mas devo dizer que discordo em um ponto:
    Qdo ela se refere à escolha dos caminhos, e passo a citar ” embora se escolha o Orí antes de nascer na Terra, os caminhos vão sendo traçados ao longo da vida.”
    É verdade que ALGUNS caminhos vão sendo escolhidos ao longo da vida mas ela se esquece dos caminhos (ODU) que vêem connosco desde a hora do nosso nascimento,: estão traçados e nada conseguirá desviar-nos deles. É o que comumente se chama de destino. Eles são irreversiveis e por mais que queiramos nunca poderemos mudá-los. Por mais que nos desviemos deles, sempre aparecerão em nossa vida e serão portanto cíclicos. Eles se traduzem em 4 caminhos. O resto nós próprios faremos com nossos passos, nossas decisões, e poderemos crescer ou regredir, dependendo de nós proprios e das circunstancias que nos rodeiam, mas esses 4 caminhos (ODUM DE NASCIMENTO) nunca poderão ser alterados.
    Espero ter contribuido de alguma forma para melhor esclarecer os leitores deste blog sobre a importancia do Ori em nossas vidas.
    Osala cubra todos com o Ala da paz.
    Babal’Orixa Ajale Emi L’Axé

  6. Bem , me iniciei na umbanda a pouco tempo, pois vim donkardecismo, queria saber se na umbanda é certo usarmos o Termo Bori qyuando firmamos nossos guias(santos).

    • Leonardo Bezerra (Mutakelenji)

      Olá Luciana, boa tarde. Muito bem vinda a Umbanda.
      Não é o correto, mas ja está se tornando o termo o oficial. O correto seria camarinha. Bori é um ritual pertencente as crenças de matriz africana, e nada tem a ver com a camarinha.

      Mas não de ser o termo que mudara o fim.

      Asè
      Kibuko

  7. BOA NOITE,

    FREQUENTO A UMBANDA , E ME SINTO SUPER BEM !!
    HÁ 1 ANO E 9 MESES PASSO POR UMA FASE DE RECUPERAÇÃO PÓS-CIRURGIA DE RETIRADA DE TUMOR CEREBELAR (BENÍGNO) E COM ISSO FIQUEI EM CASA , PUDENDO ME CONHECER, REFLETIR E ME APROXIMAR MAIS AINDA DO “PAI MAIOR” NOSSO DEUS E DOS MEUS GUIAS QUE MUUUITO ME AJUDARAM … E A UMBANDA FOI , É , O MEU MAIOR PORTO …

    PARA ISSO GOSTARIA DE FATO DE ESTUDAR , LER SOBRE ELA O QUE VC INDICA?? QUERO ESCLARECER TODAS AS MINHAS DÚVIDAS. ALÉM DO QUE ME SINTO GRATA AOS ORIXÁS E CABOCLOS …

    SINTO A PRESENÇA CONSTANTE DE VONTADE DE AJUDAR AS PESSOAS, QDO ESTIVER 100% E VOLTAR À ATIVA QUERO ME APROFUNDAR NA PRÁTICA DA UMBANDA.

    UMA DÚVIDA QUE VC PODE COMEÇAR A ME ESCLARECER :

    QUEM DETERMINAR QDO DEVERÁ SER FEITO O “BORI” ?? FREQUENTANDO A MESA BRANCA (UMBANDA) PODE-SE FAZER O “BORI” OU SOMENTE NO CANDOMBLÉ??

    • Leonardo Bezerra (Mutakelenji)

      Fico muito feliz pela sua recuperação e ainda mas feliz por saber que encontrou imenso apoio na Umbanda.

      Exitem vários títulos sobre o assunto: Os Orixas (Pierre Fatumbi Verger), Águas de Oxalá – Awon Omi Osala (José Beniste), Almas e Orixás na Umbanda (Omoluba), A Missão da Umbanda (Norberto Peixoto) e tantos outros que fica difícil citar.

      Respondendo a sua pergunta o Bori é um ritual do Candomblé, portanto só alguém iniciado e com o conhecimento e o direito de o fazer pode realizar um Bori. Quem determina se deve ou não ser feito o Bori e qual Bori deve ser feito são os Búzios. Alguns Sacerdotes (Zeladores) de Umbanda realizam o Bori, isso porque eles foram iniciados e tem o conhecimento para tal. Mas o Bori não é um ritual da Umbanda e não pode ser feito por qualquer um. Nosso Ori é sagrado.

      Espero ter ajudado.

      Ire O
      Kibuko

  8. olá por gentileza estou frequentando uma casa de umbanda a 8 mese ebjos ñ recebo nada embora o pai ponha a mão na minha cabeça nada acontece e eu gosraria muito de dar um buri pra ver se meus orixas se aproximam sou filha de omolu e iansã o que faço bjs e obrigada

    • Leonardo Bezerra (Mutakelenji)

      Elaine boa noite, eu, sinceramente, peço desculpas pela demora em responder, mas estou envolvido em outros projetos sobre a cultura afro e fica difícil ficar escrevendo para o blog.

      Olha a umbanda não realiza Bori (ritual de dar comida a cabeça), há menos, é claro, que o pai de santo seja iniciado no candomblé. O que se faz na umbanda é a camarinha. Não creio que nenhuma das duas ajudará você a incorporar, porém te ajudarão a fortalecer seu lado espiritual. Penso que o mais sensato seja mesmo ter calma. Conheço pessoas que estão no santo a muito tempo, são médiuns de incorporação, e nada de entidades ou orixá tomar a cabeça. Tenha calma, tudo acontecerá no seu devido tempo.

      Muito Kibuko a você. Tudo de Ire.

      Um grande abraço.

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